Nos braços da Amazônia: entre rios, redes e silêncios.

Na Amazônia, o tempo não se atravessa. Se vive. E às vezes, se ama. Por aqui, os caminhos não são de chão firme, mas de águas largas que abraçam cidades e sonhos. Entre um destino e outro, o barco — esse velho companheiro de madeira e motor — se transforma num pequeno mundo flutuante onde o tempo não tem pressa e o silêncio é cheio de sentidos profundos. Os caboclos chamam de barco de linha ou recreio, mas para quem já viajou por ele com o coração aberto, é mais do que um meio de transporte: é um cenário onde a vida se desenrola com a delicadeza de um romance amazônico.
Tudo começa com a rede, cuidadosamente amarrada, onde se vai dormir, sonhar, observar, ouvir. Naquele pedaço de pano estendido entre dois ferros, o passageiro transforma o espaço em lar — por um dia, dois, três ou quantos forem necessários até chegar. A bordo, não há pressa. Há tempo. Tempo para o cheiro do café se misturar com o do rio, tempo para ver a mata desfilando silenciosa do lado de fora, tempo para ouvir a fala baixa dos vizinhos de rede, que dividem não só farinha e feijão, mas também histórias, lembranças e sorrisos.
O motor ronca como um velho contador de causos. No começo assusta, depois embala. E com ele, o barco desliza por entre margens que parecem pintadas à mão — com árvores que se debruçam sobre as águas, aves que cortam o céu em silêncio e botos que surgem como poesia viva. Não há janelas, mas o mundo todo está ali, aberto, vasto e generoso. De vez em quando, um povoado surge na curva do rio. Uma criança acena, uma senhora sorri da varanda. E quem passa devolve o gesto com um aceno tímido, quase agradecido. É como se a floresta tivesse olhos e saudade.
À noite, o barco se transforma em aldeia de luz tênue e murmúrio manso. As redes se balançam suavemente, embaladas pelo vento e pelos pensamentos de quem olha o céu estrelado como quem reza em silêncio. A Amazônia dorme devagar, e o passageiro também. Dorme leve, envolvido pela respiração profunda da mata, pela cumplicidade do rio e pelo calor de uma rede que abraça. Em nenhuma parte do mundo se dorme assim — suspenso entre céu e água, entre sonho e travessia.
É ali, no meio da imensidão, que se descobre a beleza da simplicidade. Um copo de café quente ao amanhecer. Um prato de arroz com peixe fresco dividido com um desconhecido. O olhar perdido na linha do horizonte. Um silêncio que não oprime, mas conforta. E quando se menos espera, nasce a amizade, a ternura, o afeto. Porque no barco de linha, o tempo se estica e dá espaço para a gente se enxergar. O que nas grandes cidades não dura cinco minutos, ali pode durar uma vida inteira.
Alguns se apaixonam durante a viagem. Outros, por ela. Há quem encontre respostas no vai e vem da água. E há quem apenas se reconcilie com o que havia perdido de si mesmo. Porque o barco de linha não leva apenas corpos — ele carrega emoções, segredos, saudades, reencontros. Cada parada é um novo capítulo. Cada rede armada, um novo começo.
Na Amazônia, quem viaja de barco aprende que a pressa é um erro urbano. Aqui, é preciso escutar o tempo da natureza, o tempo do outro, o tempo da alma. A floresta não grita — ela sussurra. E só escuta quem cala por dentro. Talvez por isso, quem vai pela primeira vez, estranhe. Mas quem vai pela segunda, já leva rede própria. E quem vai pela terceira, leva o coração amarrado num nó invisível que o rio não desata.
E assim seguimos: navegando por dentro da Amazônia e por dentro de nós mesmos. Entre silêncios que falam e paisagens que curam. Porque viver aqui é isso — saber que cada viagem é mais do que um deslocamento. É um romance, uma oração, um pedaço do coração da floresta batendo dentro do peito da gente.
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Com Licença, Que Eu Volto Depois

Era uma noite qualquer de Belém, dessas em que o calor só se ameniza com umas cervejas geladas e boas risadas entre amigos. O expediente puxado da semana pedia uma válvula de escape, e eu, obediente aos apelos do cansaço, fui atender. Já passava da meia-noite quando cheguei em casa, pé por pé, tentando não acordar ninguém — não por medo de briga, mas por simples estratégia de sobrevivência conjugal.
Entrei, tomei um copo d’água, me joguei na cama e, quando finalmente estava pegando no sono dos justos (ou dos ligeiramente embriagados), fui sacudido pela minha esposa. Com os olhos arregalados e voz trêmula, ela me disse que estava vendo a irmã… a irmã que havia falecido fazia alguns meses. A mais velha. Aquela que tinha opinião sobre tudo — inclusive sobre mim. A essa altura, o álcool já tinha evaporado e a coragem também.
Nunca fui exatamente íntimo das questões espirituais. Se alguém resolve atravessar o véu da eternidade pra bater um papo, por mim tudo bem — desde que não seja comigo. Diante da revelação fantasmagórica, olhei para minha esposa com a serenidade de quem acabou de perder toda a compostura e disse: “Olha, a irmã é tua. Se quiser conversar com ela, fique à vontade. Eu vou ali esperar ela sair e, quando tudo acalmar, volto pra dormir.”
Ela me olhou com aquela cara de quem esperava apoio, proteção, talvez um exorcismo caseiro. Mas recebeu mesmo foi minha ausência estratégica. Deitei no sofá da sala, com um travesseiro, um lençol e um olho bem aberto — não pela insônia, mas por pura vigília espiritual. Vai que a falecida resolvesse me incluir no papo. Não sou bom de recados do além.
No fim das contas, minha esposa disse que a irmã sumiu sem deixar bilhete. Talvez tenha percebido que ali não tinha audiência receptiva. Eu, até hoje, mantenho minha política clara: respeito os mortos, mas de preferência que fiquem do lado de lá. E se algum dia a falecida quiser voltar, por favor, agende com a irmã — porque comigo, só com hora marcada… e depois do nascer do sol.
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O Circo Chegou. E Eu Estava Lá.

Escrever sobre a infância é como rebobinar um filme empoeirado que, de repente, volta a brilhar na tela da memória. No mês que completo 68 anos, com mais de meia vida navegada por rios e caminhos tortuosos, ainda me emociono ao lembrar da primeira vez que fui ao circo. Eu era só um menino curioso em Borba, cidade onde nasci — uma pequena cidade às margens do rio Madeira, no estado do Amazonas, que naquela época contava com, no máximo, dois mil habitantes. Tudo começou numa manhã sem pressa, quando uma novidade correu feito enchente pelas ruas da cidade: o Circo do Bacalhau havia chegado. Para nós, que crescíamos embalados por redes e estórias contadas à luz de lamparinas, aquele anúncio parecia coisa de outro mundo. E talvez fosse mesmo. Afinal, naquele dia comum, o impossível vestiu sapatos grandes, nariz vermelho e nos convidou a sonhar.
Era um dia comum na cidade até que, de repente, algo extraordinário aconteceu. O Circo do Bacalhau chegou, trazendo um alvoroço que percorreu as poucas ruas como um vento cheio de promessas e magia. Lembro-me vividamente de Bacalhau, vestido de palhaço, desfilando pelas ruas e anunciando os espetáculos com alegria contagiante. Sua voz animada e os gestos teatrais despertaram em nós, crianças, um misto de curiosidade e empolgação. Para quem, como eu, nunca havia pisado em um circo, aquilo era quase inacreditável. Finalmente, eu teria a chance de ver ao vivo o que antes só existia em histórias que ouvíamos – muitas delas inventadas por quem também jamais havia entrado em um.
Quando o dia da estreia chegou, lá estava eu, na fila, junto a um pequeno grupo de crianças, todos ansiosos por aquela novidade. Não havia uma grande lona colorida nem um picadeiro como nos filmes; o espetáculo aconteceria em uma casa adaptada, na terceira rua. A simplicidade do cenário não diminuía nossa expectativa – ao contrário, parecia aumentar o mistério e a magia do que estava por vir.
O show começou, e imediatamente fomos transportados para um mundo encantado. O primeiro a entrar foi o palhaço, que arrancou de nós gargalhadas que ecoaram pelo espaço. Depois vieram outros números: malabarismos, mágicas, e até um trapézio, que, para nosso espanto, ficava a poucos centímetros do chão. Para quem já havia caído de árvores altas, aquele “voo” parecia um pouco menos impressionante, mas mesmo assim, a atmosfera nos deixava em êxtase.
A cada apresentação, o encantamento crescia. A simplicidade dos números não era barreira para a grandiosidade do momento. Para nós, crianças de uma cidade onde a rotina era moldada pelo som dos rios e a luz das noites era sempre breve, aquilo era o maior espetáculo do mundo.
E então, quando as luzes da cidade começaram a piscar – o aviso inevitável de que em 15 minutos tudo ficaria às escuras –, foi hora do gran finale. Nesse instante, percebemos algo que só aumentou nossa admiração: o dono do circo era também o palhaço, o malabarista, o mágico e o protagonista de tudo. Bacalhau, sozinho, fazia do pequeno espetáculo uma experiência grandiosa, carregada de magia. Ele era o circo.
Voltei para casa naquela noite com o coração transbordando. A magia do Circo do Bacalhau não estava em grandes estruturas ou espetáculos elaborados, mas na paixão e no talento de um homem que, com simplicidade, nos fez acreditar que o impossível era possível.
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O Açucareiro Voltou — e a Medida Agora é Sua

Outro dia li que a Europa vai proibir os pacotinhos de açúcar. Aqueles sachezinhos que a gente rasga com os dentes ou com os dedos meio molhados de café. Vão sumir das mesas por ordem de cima. E, no lugar deles, volta o velho açucareiro. Isso mesmo: o pote gordo, de vidro ou porcelana, aquele que já foi rei absoluto das mesas de bar, padarias, lanchonetes e das cozinhas de vó, agora vai ganhar assento nas cafeterias moderninhas da Alemanha à Espanha. É como se a praticidade industrial estivesse perdendo para o bom senso coletivo — ou, quem sabe, para a necessidade de reduzir tanto lixo.
Confesso que sorri quando li a notícia. Não por nostalgia, nem por saudade de tempos melhores, mas porque há algo estranho nessa obsessão que criamos por tudo ser embalado em doses mínimas, calculadas, higienizadas e descartáveis. O pacotinho era isso: uma forma moderna de esconder o exagero em embalagem reciclável. Dois, três, cinco de uma vez, sempre com a desculpa de que eram “só três gramas”. Mentira doce. A culpa vinha depois, no paladar e na consciência. E o papelzinho vazio, amassado sobre o pires, parecia sempre um lembrete de que a gente não sabe mais dosar quase nada.
O açucareiro, por outro lado, não engana ninguém. Está ali, à vista de todos, com a colher enfiada até o cabo, exposto como quem diz: “Você sabe o que está fazendo?”. Não tem rótulo, nem lacre, nem quantidade sugerida. É você por você mesmo — e, de quebra, por quem vem depois. Ele pede uma certa compostura. É preciso pegar com cuidado, sem derramar, sem deixar grãos espalhados na mesa. O açucareiro exige algo que estamos desaprendendo: responsabilidade no pequeno gesto.
Curioso como algo tão simples virou símbolo de descontrole. O açúcar, que antes era só um detalhe no café ou no chá, virou personagem de campanha pública, artigo de risco, alvo de políticas. Mas, cá entre nós, ninguém pede desculpa quando joga sal demais no prato. O problema não está no gosto — está no peso moral que colocaram em cima dele. O açúcar virou vilão numa novela mal escrita, dessas em que o mocinho exagera um pouco, mas no fundo só quer agradar.
Não estou aqui fazendo a defesa do exagero. Tem gente que adoça o café como se estivesse tomando calda de pudim. Mas também não compro essa ideia de que o açúcar é o inimigo da saúde mundial. O que falta mesmo é medida. E talvez a volta do açucareiro ajude nesse sentido: menos encenação, mais equilíbrio. Uma colher para quem quer, nenhuma para quem não precisa, e vida que segue. A doçura, como tudo na vida, tem mais a ver com o jeito do que com a quantidade.
O mundo muda, os regulamentos mudam, mas a verdade é que ainda precisamos de um pouco de doçura — no gosto, nas palavras e no trato com os outros. Se ela vem de um potinho no centro da mesa, e não de um sachê medido por máquinas, talvez o café não mude tanto. Mas o gesto, esse sim, pode ganhar outro valor. E às vezes, no meio da correria, tudo o que a gente precisa é exatamente isso: uma colherzinha de açúcar — bem dosada, sem culpa, e na nossa própria medida.
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Entre Margens e Memórias

Não foi por acaso que minha paixão pelos rios nasceu. Já vim ao mundo com os pés quase dentro d’água, na margem direita do Rio Madeira, em Borba — uma pequena cidade que na época abrigava umas duas mil almas entre ruas de cimento e chão batido —, numa casa modesta, daquelas que respeitavam o rio como quem respeita um velho sábio. Ali, o tempo corria no compasso das correntezas, e o pôr do sol tingia de dourado as tardes, como se cada entardecer fosse uma celebração sagrada. Era uma beleza tão natural, tão generosa, que qualquer palavra parece pouca para descrever. O Madeira não era apenas paisagem — era voz, era companhia, era chão de água onde plantei meus primeiros sonhos.
Naquele tempo, sair de Borba rumo à capital, Manaus, era uma travessia que só o rio permitia. Avião era luxo distante, coisa rara. Estrada, nem sombra havia. Foi naquela primeira viagem de barco, descendo o Rio Madeira até sua foz e depois subindo o rio Amazonas — aquele curso d’água imenso que parecia um mar dentro da floresta — que a paixão virou coisa séria. Uma criança navegando por aquelas águas largas e misteriosas, com os olhos arregalados diante de tanta água e tão pouca terra entre uma cidade e outra. Quando o barco se aproximou do Encontro das Águas, vi o que parecia milagre: dois gigantes, o Negro e o Solimões, correndo lado a lado sem jamais se misturar. Aquela imagem ficou gravada em mim como uma tatuagem na memória, daquelas que o tempo não apaga.
Foi ali que nasceu a curiosidade. Como pode um rio não se misturar ao outro? Por que um é escuro como mistério e o outro barrento como o tempo? Por que seguem juntos, mesmo sendo tão diferentes? Comecei a perguntar, a escutar, a sentir. E sem perceber, cada viagem virava descoberta, e cada descoberta me puxava mais pra dentro desse mundo líquido. Era como se os rios me contassem segredos em voz baixa, e eu, menino atento, tentasse aprender cada sílaba desse idioma sem dicionário.
Depois do Madeira, do Amazonas, do Negro, fui conhecendo outros irmãos d’água. O Tapajós, claro como vidro em dia de sol. O Canumã, discreto como quem guarda tesouros antigos. O Guamá, forte, com jeito de quem tem opinião formada. Cada rio era um universo. Cada um com seu jeito de correr, com suas margens, suas gentes, seus silêncios. E mais tarde, quando a vida me levou para além da Amazônia, continuei encontrando rios que falavam comigo — cada um a seu modo, mas sempre em tom familiar.
Lembro do Douro, recortando vinhedos no norte de Portugal como quem desenha poesia nas encostas. O Tejo, espelhando o céu de Lisboa com aquele ar de saudade que só os portugueses sabem traduzir. O Amstel, em Amsterdã, dividindo a cidade entre bicicletas e reflexos. O Spree, o Moldava… tantos outros cujos nomes às vezes me escapam, mas cujo sentimento permanece. Em cada ponte, em cada cais, em cada barquinho solto à deriva, reencontro aquela varanda de Borba, onde tudo começou.
Há quem diga que é exagero, mas afirmo sem receio: os rios são românticos. Não no sentido das cartas de amor, mas no sentido profundo de quem acolhe, espera e nunca se cansa de seguir adiante. Um rio ensina a continuar, mesmo quando chove, mesmo quando seca. Ensina que toda curva esconde uma promessa de paisagem nova. Isso é poesia. Isso é vida. Isso é rota. E também é prosa.
Hoje, quando alguém me pergunta de onde vem essa paixão, não sei responder com lógica. Não foi escolha — foi destino. Foi herança líquida. Foi amor à primeira margem. E sigo assim, navegando. Às vezes pelos rios de verdade. Outras vezes por dentro de mim. Porque, no fundo, os rios também moram na gente. E quem nasce com os pés na água nunca desaprende a escutar o que ela tem a dizer.
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O Hotel no Pé da Cordilheira
Passei por volta de oito dias em Mendoza no final de junho de 2024, e foi como mergulhar num outro tempo — mais bonito, mais generoso, mais silencioso. Um lugar de beleza ímpar, onde a paisagem parece feita à mão e o frio tem gosto de vinho bom. A cidade, rodeada por montanhas e vinhedos, oferece o que há de melhor para os sentidos: ar puro, céu limpo, sabores intensos e um povo que, ao contrário do que às vezes ouvimos por aqui, recebe com uma simpatia tranquila, firme e verdadeira. Os argentinos, especialmente os mendocinos, foram uma surpresa encantadora — educados, prestativos e sempre prontos para um bom papo ou uma boa dica.
Fiz muitos passeios, inclusive subindo pela lendária estrada da Cordilheira, a Ruta Nacional 7, que leva ao Chile. A paisagem ali é daquelas que a gente guarda em silêncio, só para não atrapalhar o espetáculo da natureza. Visitei várias bodegas, cada uma com sua personalidade, sua história e seu terroir. Mas se há uma que me marcou profundamente foi a Casa Vigil, onde é produzido o extraordinário Gran Enemigo — um vinho que merece ser chamado de joia rara, daqueles que falam com a alma antes de chegar à boca.
Foi nesse clima de encantamento que me hospedei no Chozos Resort, um lugar onde a arquitetura se dobra à paisagem e não o contrário. Nada de quartos comuns: ali, os hóspedes ficam em estruturas individuais, com design de iglus futuristas, espalhados harmonicamente entre os vinhedos, como se fossem pequenas cápsulas de silêncio e contemplação. Dormir ali é como dormir dentro de uma obra de arte — com conforto, privacidade e uma vista que não se compra, apenas se agradece.
Tudo naquele lugar é feito com cuidado em cada detalhe. O acolhimento, o serviço, os vinhos servidos, os aromas que saem da cozinha, a gentileza no olhar dos funcionários. Mas o que me conquistou de vez foi a companhia de dois anfitriões muito especiais: Negro e Luna, os cães do Chozos. Negro, com seu porte sóbrio e atento; Luna, mais tranquila, mas sempre presente. Ambos me acompanhavam com naturalidade, como se já soubessem que eu precisava exatamente daquilo: presença sem pressa.
À noite, com um Malbec encorpado e elegante na taça, e os Andes à espreita lá fora, o mundo parecia no compasso certo. Negro deitava ao meu lado. Luna, perto, mas sempre em vigília. A lareira ardia em silêncio, o frio entrava só o necessário, e o vinho, como todo vinho de Mendoza, trazia mais que sabor — trazia história, cuidado, tempo e alma. E como são bons os vinhos mendocinos! De todos os estilos, para todos os paladares. Vinho ali não é produto, é identidade. É cultura. É vida bem vivida.
Voltar a Mendoza é mais que vontade — é compromisso. Quero rever os caminhos, reencontrar os vinhedos, degustar mais lentamente, subir a Cordilheira outra vez… e, claro, reencontrar Negro e Luna. Porque alguns lugares não nos deixam partir por inteiro. Eles guardam parte da gente — e nos esperam, com taça cheia e olhar manso.
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