O avanço da inteligência artificial já está sacudindo o mercado de trabalho no mundo todo, e o Brasil não vai passar ileso. Segundo um levantamento da consultoria LCA 4Intelligence, cerca de 31,3 milhões de empregos no país serão impactados, e 5,5 milhões podem simplesmente desaparecer, substituídos por máquinas que não se atrasam, não pedem aumento e não fazem pausa para o cafezinho.
O Fórum Econômico Mundial foi direto: quase metade dos empregadores (41%) já planeja enxugar o quadro de funcionários por conta da IA. Pela primeira vez, quem está mais ameaçado não são os empregos braçais, e sim os cargos de escritório — os famosos “colarinho branco”. Sim, aquele estágio tão sonhado, a vaga de analista ou até de engenheiro, que sempre foram sinônimos de estabilidade, agora estão na berlinda.
Dario Amodei, CEO da Anthropic e um dos nomes mais respeitados da área, deu um recado duro numa entrevista recente: chega de dourar a pílula. Ele prevê um corte em massa de empregos nas áreas de tecnologia, direito, consultoria, finanças e outras funções de entrada. “Vivemos numa economia capitalista. Se a IA fizer mais rápido, melhor e mais barato, o empresário vai trocar, simples assim”, afirmou.
A pesquisadora de tendências Andrea Janér alerta que não dá para comparar essa revolução com as anteriores. Antes, as mudanças levavam décadas. Agora, elas acontecem em poucos meses. Estágios e programas de trainee, por exemplo, estão na mira. Afinal, um estagiário ainda está aprendendo. A IA, não. Ela já sabe, já responde, já entrega — e sem supervisão.
No Brasil, apenas 13% das empresas usaram IA em 2024, o que, na prática, dá um pouco mais de tempo para que os trabalhadores se adaptem. E mais: o uso da IA se concentra em grandes empresas e no setor de tecnologia (38%). Ou seja, a padaria da esquina provavelmente ainda não vai trocar o padeiro por um robô. Mas, se você trabalha em uma grande companhia e lida com dados, atenção redobrada.
Mesmo profissões que pareciam à prova de crise começaram a balançar. Andrea lembra que, até recentemente, engenharia era uma aposta certa. Mas, no último corte da Microsoft — 6 mil demitidos —, as áreas mais atingidas foram justamente engenharia e ciência de dados.
A longo prazo, o cenário exige mudanças profundas. Adriano Carezzato, professor de IA, compara esse momento à chegada da internet. Só que, agora, quem não se adaptar corre o risco de ser excluído não só do mercado de trabalho, mas também das decisões políticas e dos rumos da sociedade.
Líderes como Elon Musk, Sam Altman e Bill Gates já deixaram claro que a IA vai fazer “quase tudo” que os humanos fazem hoje. E Sam Altman, CEO da OpenAI, foi além: está financiando estudos sobre Renda Básica Universal, porque, num mundo em que as máquinas fazem tudo, a sociedade vai precisar se reorganizar. Se hoje vivemos em torno do trabalho, amanhã pode ser diferente.
Amodei ainda fez um alerta final: o equilíbrio das democracias se baseia no poder da população em criar valor. Se isso desaparecer, tudo pode se tornar muito instável. Mas ele não é só pessimista — propõe ações urgentes, como educação tecnológica em larga escala, políticas públicas voltadas à nova economia e mais transparência sobre o que está por vir.
Leonardo Lins, do Cetic.br, encerra com um paralelo esperançoso: “No passado também enfrentamos revoluções duras, mas aprendemos o que é dignidade, cidadania e trabalho justo. Esses valores vão pesar na hora de criarmos as novas regras do jogo.”




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