É cada vez mais difícil competir com a inteligência artificial quando o assunto é publicidade. Na China, por exemplo, o influenciador Luo Yonghao arrecadou nada menos que US$ 7 milhões em uma transmissão ao vivo — sem nem aparecer de verdade. No lugar dele, estavam seus “gêmeos digitais”, versões criadas por IA capazes de apresentar produtos com tanta naturalidade e eficiência que superaram suas transmissões anteriores com equipe real. Enquanto isso, no Ocidente, Mark Zuckerberg já anunciou que a Meta deve automatizar totalmente suas campanhas publicitárias até 2026. Em outras palavras, criativos humanos estão ficando em segundo plano.
O plano da Meta é ambicioso: substituir a criação, o direcionamento e a veiculação de anúncios por sistemas de IA. Sem redatores, sem diretores de arte, sem compradores de mídia. Tudo será feito por algoritmos que aprendem com os dados e reagem em tempo real. Para quem cresceu vendo “Mad Men”, a série que romantizou a era dourada da publicidade, é difícil imaginar um mundo onde não existam mais brainstorms em salas cheias de ideias e cafés. Mas ele está chegando. E rápido.
A mudança não é só na criação. Também afeta o modo como os anúncios são produzidos. Um exemplo recente veio da empresa Kalshi, que estreou durante as finais da NBA um comercial criado inteiramente por IA — em apenas dois dias. Nada de equipe de filmagem, atores, locações ou semanas de trabalho. Só inteligência artificial e criatividade digital, sob o comando do youtuber P.J. Accetturo. O resultado? Um vídeo cheio de impacto, memes e estilo de videogame, que rendeu manchetes e muitas visualizações.
Hollywood, sempre atenta, já começou a se adaptar. A AMC, tradicional rede de TV americana, firmou parceria com uma startup de IA para criar cenas, imagens e até visualizar projetos antes mesmo das filmagens. A inteligência artificial está deixando de ser uma curiosidade e se tornando uma ferramenta central nos bastidores da indústria do entretenimento. E se ela consegue isso com filmes e séries, imagine o que pode fazer com um banner ou um comercial de 30 segundos.
A pergunta que paira no ar é: a criatividade humana ainda tem espaço nesse novo cenário? Será que as ideias que tocam o coração — como aquelas defendidas por Don Draper em seu clássico discurso sobre a nostalgia — continuarão surgindo apenas da cabeça de gente como nós? Ou será que os robôs já estão aprendendo a emocionar também? Hoje, qualquer briefing pode ser transformado em imagem com realismo impressionante em minutos, usando plataformas como o Midjourney.
Mesmo que as agências de publicidade não desapareçam por completo, é quase certo que terão que se reinventar — e talvez encolher. O segredo pode estar na combinação: usar o poder da IA como alavanca, sem perder o toque humano que faz uma marca ser lembrada. Afinal, empresas continuarão buscando eficiência, mas também querem conexão com seus públicos. E, até segunda ordem, emoção ainda é especialidade nossa.




Deixe um comentário